Superando os limites do deslocamento urbano em Resende

21 de January de 2012 - 13:05:22

 

Dinâmicas, bucólicas, virulentas, plácidas e sempre contraditórias, as cidades são antes de tudo vivas. Para o desespero das administrações públicas e daqueles com visões romanticamente cartesianas.

Se uma administração fica indecisa e paralisada em torno de uma questão, a cidade não espera, a sociedade como um todo vai tomando diariamente suas decisões como um organismo que luta contra uma infecção ou uma planta crescendo de modo lento e contorcido em busca de luz.

Exemplos é o que não faltam e o transporte é um deles.

Quando o transporte público é ruim e precário, não obedecendo horários nem níveis razoáveis de conforto, o deslocamento é feito de outra forma. Então surgem os carros particulares, que ficam à disposição de seus donos... e lotam ruas e criam engarrafamentos que atrasam ainda mais ônibus, formando um círculo vicioso. Quando o trânsito não suporta mais carros, aparecem as motos furando os congestionamentos e colocando a vida de seus usuários em risco. Quem não tem dinheiro para o carro ou a moto, mas não quer ficar parado dentro dos ônibus, vai de bicicleta, aventurando-se entre becos do trânsito, na contramão das avenidas e invadindo calçadas. No meio desta bagunça o pedestre tenta sobreviver, e se deslocar do modo mais seguro possível (ou ao menos o menos perigoso). E depois de tudo isso possivelmente a administração pública vai dizer que o problema é muito complexo e que precisa de mais tempo para buscar uma solução... enquanto isso a cidade espera, ou melhor, não espera!

Este roteiro é velho conhecido, acontece invariavelmente em inúmeras cidades e está acontecendo aqui em Resende há muitos anos. As mudanças promovidas na atual administração quebraram algumas décadas de imobilidade administrativa e constituíram um bem-vindo movimento de ousadia (recebido com entusiasmo por mim como descrito aqui), mas elas só não bastam.

Agora precisamos pensar menos em “como andar mais rápido de carro” e mais em “como proporcionar um deslocamento mais eficiente” em Resende. Isso envolve medidas em diversas áreas, e algumas podem ser listadas quase que instantaneamente.

Dizer que é preciso incentivar o transporte coletivo já é clichê, mas continua válido. Os grandes problemas dos ônibus são, nesta ordem, falta de confiança no horário, lentidão e lotação. Para controlar os horários, a frota de ônibus urbano de Resende pode ser eletronicamente controlada de modo que tenhamos dados para saber os pontos de gargalo, e quem sabe, disponibilizar a localização exata dos ônibus ao público, nos principais terminais e claro na internet e celulares. Isso é uma medida barata e rápida que precisa apenas de boas intenções. Qualquer empresa já faz isso de modo on line com sua frota de veículos e qualquer adolescente faz isso com seus amigos em softwares como o “check-in” do Facebook. Simples e barato. Com ônibus em horários confiáveis poderia ser iniciado um processo de criar ruas ou corredores exclusivos para eles, tornando-os assim mais rápidos.

Para aqueles que não podem esperar o horário do ônibus (e não desejam ou não possuem carros) podem ser criadas outras opções. Uma idéia já velha são as ciclovias (para deslocamentos curtos) e táxis para os mais longos. Vamos a eles:

As ciclovias devem passar pelas ruas mais importantes da cidade (são os carros que devem dar maiores voltas e estacionarem mais longe) além do fato de que bicicletários devem ser espalhados pela cidade para evitar o caos de bicicletas espalhadas por toda a parte na cidade. O grande erro quando se propõe ciclovias é pensá-la como instrumento de lazer. Quando se deseja que a bicicleta seja uma opção de transporte, a ciclovia deve atender às demandas dos usuários que vão fazer compras, ao banco e ao trabalho. O ciclista esportivo de final de semana não pode ser o foco do projeto da ciclovia.

Quanto aos táxis, eles devem ser incentivados como penúltima alternativa (a última é o carro particular). Suas restrições em Resende são duas: preço e pouca quantidade. O preço deve ser fiscalizado em mais detalhes e buscar dar incentivos de modo que seja reduzido, como isenção de impostos e benefícios como financiamento. A quantidade de veículos precisa ser aumentada e novos pontos em bairros populosos e mais distantes devem ser criados (bairros como Surubi, Fazenda da Barra e Cidade Alegria têm pouca oferta de veículos, por exemplo).

Mas tudo isso só tem sentido com calçadas... calçadas e mais calçadas. Alargadas, sem buracos e adaptadas para quem tenha qualquer limitação de locomoção, como cadeirantes ou idosos. Um bom começo seria reduzindo ao máximo os famosos “canteiros centrais” (locais urbanamente abandonados) das ruas para dar oportunidade de alargar as calçadas (como exemplo as calçadas da Gustavo Jardim). Afinal, o pedestre tem prioridade número 1 na cidade, é ele que dá vida, que fiscaliza a cidade e dá segurança. Lembremos que só é seguro um local onde tenha pessoas e vida urbana.

De tudo isso, o mais importante é que a administração não pare, que os problemas sejam atacados assim que aparecerem e que tenha ousadia de pensar idéias diferentes e baratas. A solução nunca será uma obra caríssima ou uma lei milagrosa. A solução está no dia-a-dia das cidades, basta olhar com atenção e boa vontade.

 

 

Abraços,

Washington Lemos

 

Uma passarela, o século 21 e o Facebook

7 de January de 2012 - 12:28:19

 

Pensar incomoda como andar na chuva.

(Fernando Pessoa)

 

Houve um tempo em que uma prefeitura poderia simplesmente planejar e construir uma passarela em qualquer lugar da cidade e chamar a sociedade apenas para a inauguração. Mas este tempo acabou.

 

Postar, compartilhar, curtir, criticar, opinar... tudo tão simples, tão rápido e fácil. Em poucos toques qualquer pessoa pode se manifestar, mostrar seu ponto de vista e se fazer ouvir (ou ser lido!) por cidadãos, colegas, administradores públicos, imprensa e formadores de opinião.

Os grupos de discussão sobre Resende na web se multiplicam, se somam e se balanceiam obedecendo à dinâmica das redes, baseada no pluralismo e na liberdade. Considerando apenas um destes grupos, são mais de 500 pessoas debatendo a cidade, fazendo propostas, críticas e sugestões (mais do que muitos sindicatos ditos sérios e grandes!).

Mas a vida inteligente na internet vai muito além dos grupos e nas próprias timelines do Facebook e twitter o que não faltam são opiniões e impressões sobre a cidade, seus problemas e seus rumos. Todas as pessoas, mesmo aquelas que tem convicção de que não gostam de política, estão assumindo um papel de proatividade (consciente ou não) política surpreendente!

Difícil não se empolgar, e mais... difícil é não perceber que a dinâmica política-administrativa do grupo que administra a cidade ou vai acompanhar a mudança da sociedade ou ser mudado pela mudança!

A forma de fazer política (no bom sentido, atentem!) pública e administrar uma cidade não pode mais ser visto como uma função solitária, que é delegada nas eleições e cuja prestação de conta deve ser feita apenas de 4 em 4 anos. A nova dinâmica exige a constante, diária e quase instantânea prestação de contas à sociedade, explicando aquilo que está sendo feito, o que será feito e principalmente o que não está sendo feito!

A tarefa é árdua para os administradores, acostumados ao silêncio dos escritórios e à disponibilidade para negociação dos partidos, sindicados, associações de bairros e outras estruturas do século passado. O cidadão que se manifesta na internet está quase sempre preocupado apenas com sua demanda do dia-a-dia, com seu bem estar e qualidade de vida. E por isso, estes grupos têm mais legitimidade do que as demais formas de organização da sociedade (como partidos ou sindicados), pois são vivos e incapazes de serem cooptados pelo poder por meio de cargos e benefícios às lideranças.

Quem quer que deseje administrar legitimamente nestes novos tempos deve privilegiar obsessivamente a transparência da informação, saber aceitar críticas e dialogar com a sociedade de modo livre, sem interlocutores. Disponibilizar dados e compartilhar estudos feitos pela administração pública são requisitos necessários para que um prefeito seja considerado bom neste novo começo de século. O século 21 já chegou e quem não perceber vai ficar falando sozinho (e perder muitas eleições).

 

 

ah! Sobre a plataforma projeta aqui embaixo pode ver muitas opiniões (a favir e contra) no facebook

Passarela

 

Um mundo velhinho de presente para você...

24 de December de 2011 - 11:14:48

Hoje me perguntaram se eu queria um mundo novo de Natal ao que prontamente respondi: SIM! Depois, pensando com calma coloquei minhas barbas de molho. Não, não quero não.

Um mundo novinho é tentador. Imaginem um no qual possamos evitar as invasões bárbaras, o império romano, a Idade das Trevas, a Inquisição, as duas grandes guerras do século XX, Stálin, Hitler, Fidel, Castelo Branco e cia. Seria realmente um belíssimo mundo! Um mundo sem a eterna vergonha de termos escravizado seres humanos como nós, sem tráfico negreiro, apartheid ou Jihad. Seria um mundo no qual não teríamos assassinados nossos rios, nossas florestas, onde o ar não tivesse envenenado ou tantas espécies eliminadas do planeta devido às ações humanas!

Mas também, um mundo novo seria um mundo sem Newton, no qual a natureza representaria manifestações metafísicas de deuses e fantasmas a nos rodear. Um mundo sem Galileu, parado, estático no universo. Um mundo sem a dúvida de Sócrates, sem os tons de Michelangelo e o amarelo de Van Gogh. Seria um mundo no qual morreríamos ainda de tifo, sarampo e coqueluche, onde esquizofrenia seria visto como possessão demoníaca.

Ou seja, desejar um mundo novo é negar todos nossos erros e acertos até aqui, é jogar no lixo nossos 200.000 anos de trajetória sobre este planeta. É dizer que o esforço de cada indivíduo que passou por aqui não valeu nada, que os heróis, muitos anônimos outros não, lutaram por uma causa perdida chamada humanidade.

Não... por tudo isso não quero um mundo novo de natal não. Prefiro continuar neste aqui, tentando arrumar o que está errado e conservar aquilo do qual nos orgulhamos.

Quero apenas coragem, paciência e muita vontade para ir trombando com os problemas e encontrando as soluções. Quero, ao “passar o bastão” para as próximas gerações, entregar um mundinho usado, porém minimamente melhorado, reformulado, mas o mesmo velho mundo de sempre.  Aí, lá no natal de 2050 nossos netos vão precisar fazer a mesma escolha: Negar o mundo que nós ajudamos a construir hoje ou aceitá-lo com suas limitações e tentar melhorá-lo? Mas esta será a decisão deles, a minha já fiz.

Feliz natal para todos!

Abraços!

Van

Eis o amarelo de van gogh...

 

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