Dinâmicas, bucólicas, virulentas, plácidas e sempre contraditórias, as cidades são antes de tudo vivas. Para o desespero das administrações públicas e daqueles com visões romanticamente cartesianas.
Se uma administração fica indecisa e paralisada em torno de uma questão, a cidade não espera, a sociedade como um todo vai tomando diariamente suas decisões como um organismo que luta contra uma infecção ou uma planta crescendo de modo lento e contorcido em busca de luz.
Exemplos é o que não faltam e o transporte é um deles.
Quando o transporte público é ruim e precário, não obedecendo horários nem níveis razoáveis de conforto, o deslocamento é feito de outra forma. Então surgem os carros particulares, que ficam à disposição de seus donos... e lotam ruas e criam engarrafamentos que atrasam ainda mais ônibus, formando um círculo vicioso. Quando o trânsito não suporta mais carros, aparecem as motos furando os congestionamentos e colocando a vida de seus usuários em risco. Quem não tem dinheiro para o carro ou a moto, mas não quer ficar parado dentro dos ônibus, vai de bicicleta, aventurando-se entre becos do trânsito, na contramão das avenidas e invadindo calçadas. No meio desta bagunça o pedestre tenta sobreviver, e se deslocar do modo mais seguro possível (ou ao menos o menos perigoso). E depois de tudo isso possivelmente a administração pública vai dizer que o problema é muito complexo e que precisa de mais tempo para buscar uma solução... enquanto isso a cidade espera, ou melhor, não espera!
Este roteiro é velho conhecido, acontece invariavelmente em inúmeras cidades e está acontecendo aqui em Resende há muitos anos. As mudanças promovidas na atual administração quebraram algumas décadas de imobilidade administrativa e constituíram um bem-vindo movimento de ousadia (recebido com entusiasmo por mim como descrito aqui), mas elas só não bastam.
Agora precisamos pensar menos em “como andar mais rápido de carro” e mais em “como proporcionar um deslocamento mais eficiente” em Resende. Isso envolve medidas em diversas áreas, e algumas podem ser listadas quase que instantaneamente.
Dizer que é preciso incentivar o transporte coletivo já é clichê, mas continua válido. Os grandes problemas dos ônibus são, nesta ordem, falta de confiança no horário, lentidão e lotação. Para controlar os horários, a frota de ônibus urbano de Resende pode ser eletronicamente controlada de modo que tenhamos dados para saber os pontos de gargalo, e quem sabe, disponibilizar a localização exata dos ônibus ao público, nos principais terminais e claro na internet e celulares. Isso é uma medida barata e rápida que precisa apenas de boas intenções. Qualquer empresa já faz isso de modo on line com sua frota de veículos e qualquer adolescente faz isso com seus amigos em softwares como o “check-in” do Facebook. Simples e barato. Com ônibus em horários confiáveis poderia ser iniciado um processo de criar ruas ou corredores exclusivos para eles, tornando-os assim mais rápidos.
Para aqueles que não podem esperar o horário do ônibus (e não desejam ou não possuem carros) podem ser criadas outras opções. Uma idéia já velha são as ciclovias (para deslocamentos curtos) e táxis para os mais longos. Vamos a eles:
As ciclovias devem passar pelas ruas mais importantes da cidade (são os carros que devem dar maiores voltas e estacionarem mais longe) além do fato de que bicicletários devem ser espalhados pela cidade para evitar o caos de bicicletas espalhadas por toda a parte na cidade. O grande erro quando se propõe ciclovias é pensá-la como instrumento de lazer. Quando se deseja que a bicicleta seja uma opção de transporte, a ciclovia deve atender às demandas dos usuários que vão fazer compras, ao banco e ao trabalho. O ciclista esportivo de final de semana não pode ser o foco do projeto da ciclovia.
Quanto aos táxis, eles devem ser incentivados como penúltima alternativa (a última é o carro particular). Suas restrições em Resende são duas: preço e pouca quantidade. O preço deve ser fiscalizado em mais detalhes e buscar dar incentivos de modo que seja reduzido, como isenção de impostos e benefícios como financiamento. A quantidade de veículos precisa ser aumentada e novos pontos em bairros populosos e mais distantes devem ser criados (bairros como Surubi, Fazenda da Barra e Cidade Alegria têm pouca oferta de veículos, por exemplo).
Mas tudo isso só tem sentido com calçadas... calçadas e mais calçadas. Alargadas, sem buracos e adaptadas para quem tenha qualquer limitação de locomoção, como cadeirantes ou idosos. Um bom começo seria reduzindo ao máximo os famosos “canteiros centrais” (locais urbanamente abandonados) das ruas para dar oportunidade de alargar as calçadas (como exemplo as calçadas da Gustavo Jardim). Afinal, o pedestre tem prioridade número 1 na cidade, é ele que dá vida, que fiscaliza a cidade e dá segurança. Lembremos que só é seguro um local onde tenha pessoas e vida urbana.
De tudo isso, o mais importante é que a administração não pare, que os problemas sejam atacados assim que aparecerem e que tenha ousadia de pensar idéias diferentes e baratas. A solução nunca será uma obra caríssima ou uma lei milagrosa. A solução está no dia-a-dia das cidades, basta olhar com atenção e boa vontade.
Abraços,
Washington Lemos
