Nunca fui muito fã do futebol de Ronaldo (dito “fenômeno”), e fui um dos que quebraram a cara achando que sua carreira já tinha acabado. Mas isso não é importante, ao menos não neste texto.
Ele foi entrevistado na “sabatina da Folha” na última sexta-feira e proferiu algumas sentenças que atiçaram aquela hipocrisia que silencia as verdades incômodas. Basicamente Ronaldo disse preferir que seu filho seja educado na Europa, pois o brasileiro carece de educação. Questionado por Clóvis Rossi se a afirmação carregava certo racismo Ronaldo encerrou a discussão: "Não, acho que é a realidade. A gente não queria que fosse assim. Esta diferença é uma realidade, e, se posso escolher, prefiro que meu filho tenha uma educação europeia" e sentenciou: "A gente tem que pensar nos filhos".
Bastou isso para que a censura velada travestida de falso patriotismo iniciasse o patrulhamento ideológico com paus e pedras condensados em palavras de ordem contra Ronaldo. De coluna na revista Época à blogosfera todos pedem uma retratação do jogador. Por isso saio em defesa de Ronaldo.
As palavras do atacante não deveriam servir para mais uma manifestação da capacidade que temos para fecharmos os olhos para o centro do debate em nome de um ufanismo barato e ultrapassado. Deveríamos, isso sim, ter vergonha de não conseguir criar uma estrutura social capaz de proporcionar o mínimo para o desenvolvimento de cidadãos educados e conscientes.
Ronaldo nasceu e criou-se no subúrbio carioca, não teve uma educação formal digna e a interrompeu para dedicar-se ao futebol. Ronaldo apenas teve a oportunidade de comparar a educação que recebeu no Brasil com aquela proporcionada ao seu filho na Espanha (atente que estamos falando de Espanha, não é nenhuma referência no ranking de educação) e chegou à conclusão óbvia de que simplesmente não há comparação.
Até agora amarguramos uma derrota vergonhosa na missão de educar-nos... educar nossas crianças. Isso, apesar de termos como presidentes um sociólogo por 8 anos e 6 anos com um operário sensível às causas sociais. A polêmica com Ronaldo nos mostra mais uma vez que preferimos culpar o médico pela doença diagnosticada a aceitarmos as chagas e encaramos corajosamente o tratamento necessário para curá-la.