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Urbano Humano – preciso em ambos os sentidos

26 de July de 2009 - 21:58:07

Ousado e criativo no estilo. Modesto nas intenções. Promissor estrategicamente. Incompleto no momento, porém sob medida para o que se propõe. Deveria ser feito agora, já.... Eis minhas impressões durante e após a apresentação feita por Ton Kneip (Secretário Municipal de Gestão Estratégica e Planejamento) na câmara municipal de Resende.

O projeto apresentado transcende a pretensa organização do fluxo de veículos no centro comercial de Resende e isso fica evidente no nome: Urbano Humano. Ou seja, visa transformar a cidade, o ambiente urbano, em um habitat humano, um local onde seja possível prazerosamente viver, ou ao menos sobreviver de modo menos invasivo do que o atual.

O centro de Resende já apresenta sinais claros de hostilidade urbana, com trânsito pesado de caminhões, carros desrespeitando faixas e desviando de bicicletas, pedestres cruzando as ruas em locais perigosos, buracos nas avenidas e calçadas destruídas. A Praça da Concórdia, onde fica a rodoviária, é uma verdadeira manifestação de mal gosto, com pontos de ônibus sujos, sem sinalização das linhas de ônibus que por ali passam, lixo, ambulantes e (agora é novidade) um trailer sabe-se lá de onde surgiu sobre a calçada.

Portanto, mais do que uma mudança no trânsito, Resende precisa de um marco regulatório urbano, uma revitalização de sua paisagem urbana. E é justamente isso o que, a meu ver, propõe o projeto elaborado por Ton e sua equipe. Extremamente bem influenciada, a apresentação esbanjou referências a Jaimer Lerner e Niemeyer deixando deduzir as intenções estratégicas e estilísticas.

Estrategicamente o plano adota a máxima de Jaime Lerner (lendário prefeito por três mandatos de Curitiba) ao dizer que o projeto deve buscar não o ideal distante, mas sim o possível já. Repetidas vezes o secretário municipal deixou claro que o apresentado não seria a solução de todos os problemas do trânsito de Resende, contudo poderia se tronar embrião de um movimento a ser repetido em outros pontos da cidade (acupuntura urbana, nas palavras de Lerner). Portanto, estruturalmente o projeto é comedido, consistindo basicamente em alargamento para contemplar ciclovias nas duas pontes onde hoje trafegam somente veículos automotores e pedestres (a Tácito Viana e a Miguel Couto), extensão do “calçadão” sobre a av. Albino de Almeida e Nova Resende (rua do centro empresarial) e a construção de uma passarela ligando a ponte Nilo Peçanha (ponte velha) à Praça da Concórdia (a calçada da rodoviária a qual me referi acima). Estas mudanças podem ser vistas nas imagens no slide ao final do texto ou no site Resende Afora.

Quanto ao estilo, a inspiração é Niemeyer, ou seja, moderno, marcante e polêmico. E é justamente aí que está o grande mérito. Ao propor uma identidade visual para o centro da cidade o projeto coloca em evidência algo mais importante do que o design, convoca a população para debater sua cidade. A cidade precisa ter sua auto-estima valorizada, polida e exaltada e o Urbano Humano não foge deste fardo, pelo contrário, o tem como grande ponto de destaque. Um desenho moderno e ousado pode (e deve) servir de argumento para mudanças mais profundas como na educação social e na eliminação do caos urbano.

As linhas modernas e ousadas escolhidas por Ton parecem ter se inspirado naquilo que temos de mais tradicional e antigo: a ponte Nilo Peçanha. Com seus metais cruzados e cor vermelha, a ponte velha parece ecoar por todo o projeto, criando uma marca inovadora para a cidade sem, todavia, perder a referência (e a reverência) ao mais antigo cartão postal de Resende.

Outro detalhe que deve ser valorizado na proposta é a ausência daquelas soluções que os políticos adoram evocar sempre que falam de trânsito: viadutos, pontes e grandes passarelas. Realmente seria catastrófico erguer viadutos no centro de Resende, ou cruzar o centro histórico com avenidas e passarelas. A sobriedade do projeto neste sentido é louvável. As mudanças no trânsito propostas certamente causarão desconfortos quando forem implementadas, pois praticamente reformulam-se os sentidos de tráfego de todas as ruas no centro comercial e administrativo da cidade, entretanto, as melhorias aparecerão, ao menos por um período de tempo. Em política urbana e de trânsito não existe medida definitiva. É preciso que constantemente a sociedade busque novos caminhos visando sempre soluções que elevem a qualidade de vida.

Por tudo isso, como projeto piloto, a proposta de Ton, Alessandro Passos, Felipe Castaño, Roberto Reis, Marcelo Mattos, Sirléia Siqueira e Adriane Sobreira é muito bem-vinda. É um luxo para Resende termos a oportunidade de impor um estilo moderno e dinâmico à paisagem urbana. Contudo há ressalvas.

As pessoas que são pagas pelo contribuinte para pensar e criar soluções para o problema urbano de Resende deram mostras de que o estão fazendo seriamente e de modo competente. Agora resta esperar para vermos o trabalho de quem é pago para executar. A administração Rechuan em suas demais secretarias (Governo, Finanças, Administração e Obras) já cometeu um grande erro: apresentaram uma proposta técnica sem demonstrar estimativas de custos envolvidos bem como prazos para execução das obras. Existe uma expectativa (de bate-papo de corredor) de que o projeto fique em torno de R$ 10 milhões, entretanto nada oficial. Todas as apresentações são conduzidas somente pela Secretaria de Gestão Estratégica e Planejamento, sem a participação dos demais envolvidos no governo. É mais que necessário, é primordial que sejam divulgados os custos e prazos de execução para que o projeto seja levado com seriedade pelas demais secretarias municipais.

Sendo assim, fica evidente que o projeto Urbano Humano é de longe a primeira e melhor proposta de reforma levantada pela administração de Rechuan nestes quase 6 meses de governo. Merece todo o respeito dos resendenses, todo o apoio da sociedade. E cabe à prefeitura conduzir com clareza, transparência e eficiência as ações necessárias para executar o que foi tão bem projetado. Não gostaria de escrever um texto sobre os motivos pelos quais um projeto tão bom e importante não foi implementado.

É preciso planejar para fazer. É necessário fazer acontecer. Já.


Abraços,
WML

Apresentação retirada do site Resende Notícias feito sobre fotos de Otacílio Rodrigues do Resende Afora.

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