Somos livres. Livres para escolher entre beber uma coca-cola ou um suco de laranja, ter filhos ou adotar um cachorrinho, casar e passar os domingos em frente à TV ou permanecermos solteiros também em frente à TV em dia de domingo.
Podemos ler o jornal e manifestar toda a nossa revolta seletiva com o último crime bárbaro da semana (alguém aí se lembra do João Hélio?) ou cuspir discursos intelectuais de loja de conveniência (com a superficialidade das análises de um Arnaldo Jabor) a respeito dos desmandos políticos e sobre as velhacarias que ultrapassam o limite de nossa tolerância ética.
Eis algo que se multiplica viroticamente por aí: tolerância ética. Nada é mais bizarro que esta ética de padaria, de botequim, rampeiramente supérflua, frouxa, modorrenta. Uma ética que esbraveja virilmente quando uma reportagem do Jornal Nacional flagra dinheiro na cueca ou ligações grampeadas nas quais negociatas com o dinheiro público se fazem mais explícitas que bundas ou peitos de participantes do último Big Brother. Contudo, esta mesma ética não vê improbidade em pedir uma ajuda (ou favorzinho, assim mesmo, no diminutivo, para denotar uma falsa simplicidade, uma humildade de quermesse) a vereadores que atuam como facilitadores na transação pecuniária entre o privado e o público, uma ética preguiçosa que chama de secretários municipais os aliciadores dos membros ilustres de reputação ilibada da sociedade suburbana dispostos a tornarem-se parceiros comerciais nas transações pecuniárias e eticamente duvidosas entre o prefeito, vereadores e parasitas sociais, todos loucos por seu quinhão de vantagens e facilidades que o ocupante da cadeira do executivo municipal pode lhes conceder.
Uma tolerância que não se manifesta como liberdade, mas sim como opressão, uma ditadura moral, de costumes. Ouse não tolerar, ouse dizer que não é normal, ético, correto e nem necessário aceitar que ocupantes de cargos públicos tratem tudo como se fosse seu e negociem apoios como quem empresta dinheiro de sua própria carteira, fazendo investimentos contabilizando potenciais votos e não a melhoria da qualidade de vida da população e o bom funcionamento das cidades. Faça isso e receberá duas possíveis alcunhas: Mentiroso (afinal ninguém pode realmente pensar assim, seria coisa exclusiva de político hipócrita em véspera de eleição) ou Ingênuo (afinal é preciso ser muito trouxa para acreditar que se pode mudar alguma coisa no ambiente fétido e sufocante da política). Se você estudou o assunto, se você desenvolveu modelos que possibilitem alcançar estes resultados, se há exemplos de sucesso espelhados pelo mundo, ninguém acreditará, é bravata.
E a Liberdade? A liberdade que exercemos hoje está aí: no direito de criticar de modo infecundo e tolerar lenientemente. Na apatia pragmática de se calar e “tocar a vida” cuidando das “coisas mais importantes”: Pagar o IPTU, o colégio das crianças e o IPVA do carro novo comprado em 36 prestações. Engolindo “sapos” para garantir o emprego ao mesmo tempo em que alimentando suas metástases. Asfixiando qualquer pensamento visto como perturbador ou socialmente incômodo, que dificulte o sorriso amarelo e os gestos artificialmente gentis e conciliadores. Trata-se de uma liberdade de ficção, de marionetes. Pode-se pensar tudo, desde que esteja no mainstream, nos modelos mentais e nos manuais de sobrevivência e boas maneiras da sociedade. Uma liberdade de video-game, na qual todo movimento permitido foi programado e estudado pelo desenvolvedor, pela Matrix.
Em resumo: vivemos uma liberdade de bosta, fake, dolosa, hipócrita. Uma liberdade que “manda às favas” o existencialismo de Jean-Paul Sartre que via a liberdade como a manifestação da potencialidade de escolha autônoma, independente de quaisquer condições e limites, por meio da qual o ser humano realiza a plena autodeterminação, constituindo a si mesmo e ao mundo que o cerca.
Constituir a si mesmo e ao mundo que o cerca. Eis a liberdade em toda a sua sedução, aquela liberdade gravada em um singelo libertas quae sera tamen. Tardia... ainda que tardia... mesmo que tardia, porém, acima de tudo, inegociável.
Exercer a liberdade (a liberdade verdadeira, sartriana) é não tolerar a tolerância ética, é não aceitar a realpolitik governista, não se intimidar com os olhares ora descrentes, ora piedosos de quem nos ouve dizer ser possível, necessária e inadiável (quase inevitável) a reformulação dos modelos de administração pública e representatividade social, que é factível a construção de uma cidade onde a qualidade de vida e o bem estar da população sobrepujam os pequenos interesses particulares daqueles que de modo predador, ou como urubus rodeando carniça, se acomodam na administração de nossas câmaras legislativas e prefeituras à espreita de uma bala oportunidade de “se dar bem”
A liberdade real é a liberdade de acreditar... mais que isso: é a liberdade de fazer, de construir. Deveríamos ter menos tolerância ética e mais tolerância aos novos pensamentos e às novas idéias. Tolerar o ímpeto da mudança de atitude e ponto de vista. Deveríamos acima de tudo ter a ousadia de tolerar o atrevimento daqueles que acreditam serem capazes de executar o que nós consideramos impossível, aqueles que têm esperança.
Abraço,
Washington Lemos