À primeira impressão a FLIP parece um circo mambembe, um festival de rock, com suas tendas e a atrações espelhadas por uma cidade de pedra. Os eventos livres, que, por assim dizer, tiveram a FLIP como substrato, ou seja, foram induzidos a acontecer devido à programação dita oficial, se espalham e transformam Paraty em palco, recital ou telas de quadro.
Saraus com autores consagrados nos palcos oficiais disputam audiência e atenção com qualquer pedra mais saliente, baquinhos que sirvam de palanque para uma voz imponente seguida de braços quase sempre estendidos ao ar e em movimentos harmônicos que anunciam haver ali mais um poeta disposto a bradar até ficar sem voz ou público, o que eu vier primeiro.
O poder de catarse é tal que a FLIP acaba por obviamente estimular a manifestação daqueles que se sentem excluídos por ela, daqueles que gostariam de estar nos palcos e não estão, daqueles que deveriam estar no palco principal e não desejam, e daqueles que não tinham nada para falar, mas já que todos estão a falar, falam, gritam e discursam nem sempre algo aproveitável, mas quase sempre divertido.
Assim, além dos eventos oficiais da FLIP, FlipZona e Flipinha, há o pós-Flip, a pré-FLIP, o off-FLIP, o off do off-FLIP e o under-FLIP. Somente em um ambiente assim, uma bloco de maracatu explode a tocar às 23hoo e em sua andança pelas ruas todas idênticas encontrar a procissão de Santa Rita e surrealmente os dois, bloco e procissão, se permeiam harmoniosamente passando um por dentro do outro, cada um perdendo militante para o outro, de modo que ambos saem diferentes do lado oposto. Eu por sinal deixei o Maracatu para fazer umas fotos da bela procissão com velas, ladainhas e altar.
No meio da noite um microfone no meio da rua, cachaça distribuída livremente, um violão e um telão passando imagens de sabe-se lá o quê dão a deixa: vai rolar (mais) um sarau.
E o sarau começa com ar de semi-anarquia. Os poetas convidados vão se revezando no microfone, com improvisações, interpretação e poemas que parecem discursos, e discursos que parecem poemas. Tudo vai bem até um momento no qual um não-convidado (pelo visto) decide falar, e é avisado de que o microfone “estará aberto” apenas no final. Pronto. Foi motivo de rebelião. Entre gritos de “fascista” e “ditadorinho de m*” o poeta-organizador, de microfone em punho, defendeu-se alegando que apenas estava colocando ordem e que todos poderiam falar no devido momento, no final cada um poderia declamar um poema. Novo motivo de revolta. O público ficou dividido entre “é isso aí, coloca ordem nisso” e “quer aparecer vai pra FLIP, isso aqui é a rua, fala quem quer”. Dez minutos de confusão e a turma do “deixa disso” pareciam ter resolvido a tensão. O Sarau recomeçou e... alguém aparece com um (pasmem) megafone, entregando-o ao bêbado-louco-oprimido que com incontinência verborrágica desandou a bradar. Pronto, foi nova confusão. Confusão que só acabou quando um poeta que parecia ter o respeito dos dois grupos decidiu falar, e uniu, em um gesto poético e diplomático, microfone e megafone, um em cada mão, para declamar! Uma solução inusitada que só um sarau na FLIP (ou off-flip) pode proporcionar.
Era o fim da FLIP... ao menos para mim, pois Paraty, que estava em uma rave literária, não parou, e era possível comprar uma sunga ou um badulaque no artesanato em plena madrugada.
Sobre os eventos oficiais da FLIP
Das mesas que presenciei algumas valeram por umas poucas frases, ao passo que de outras seria possível transcrever dissertações e dissertações acadêmicas.
Do primeiro tipo vi, pelos telões (dica para quem for nos próximos, compre ingressos antes ou tenha fé nas filas de última hora), Ficção Entre Escombros no qual Edney Silvestre, que é um jornalista muito competente e um romancista que eu ainda desconheço, falar de seu livro ambientado nos anos Collor. Ele cravou uma assertiva lapidar sobre nossa história recente: "Eu quero que não esqueçamos. Acho que devemos lembrar. Sou contra o esquecimento", continuando sobre o Plano Collor: "O poder constituído chega para você e diz que você não tem mais nada no banco. Um casal conhecido meu se aposenta, vende o apartamento em São Paulo para comprar um sítio e fica sem nada, sem ter onde morar e vão para casa de parentes. Isso parece tão irreal, mas aconteceu."
Já a mesa Pensamento Canibal contou com uma aula João Cézar de Castro e Rocha na qual a antropofagia, Oswald de Andrade e a cultura nacional foram completamente resignificadas na minha cabeça. Falando sobre a necessidade de valorizar o pensamento teórico de Oswald de Andrade e seu reconhecimento como pensador político e filosófico, autor da "única filosofia original criada no Brasil".
Defendendo o caráter universal do pensamento oswaldiano, João Cézar passou pelo cacoete intelectual brasileiro:
“Nos ocorre, ao discutir Flaubert, pensando nos temas próprios de transformação da sociedade francesa no século XIX abordados em "Madame Bovary", questionar se ele é francês ou universal? Atribuímos ao francês, ao alemão, hoje ao inglês, uma universidalidade intrínseca, como se ela fosse natural. E quando falamos de Machado de Assis ou Oswald de Andrade, é como se precisássemos despi-los de sua brasilidade para tomá-los como universais. Isso é um problema nosso. Não superamos ainda nosso complexo de inferioridade colonial.”
Partindo disso eu iria mais longe, e “cutucaria a ferida” de nossa proto-intelectualidade mais a fundo. No Brasil existem dois tipos clássicos de pessoas que se auto-intutulam intelectuais.
O primeiro exemplo é este ao qual se refere João Cézar que vê tudo que vem da “metrópole” como intrinsecamente melhor, de valor cultural e político superior. É por isso que recebemos tantas traduções de livrinhos de auto-ajuda americanos. Se for para lermos literatura de segunda categoria, de pensamento obtuso ou simplesmente idiotizante, nós brasileiros já temos o suficiente com Chalita, Paulo Coelho e Frei Beto, não precisamos importar.
Contudo, outro proto-intelectual também povoa as faculdades e páginas culturais dos jornais como o Segundo Caderno e a Ilustrada. São aqueles que encaram tudo feito no Brasil como tupiniquimente maravilhoso, e se você não concorda é porque teria sofrido aculturamento por parte do “opressor”, você seria um pobre coitado que sofrera “lobotomia cultural”. Este tipo de “pensador” defende que o filme Central do Brasil é infinitamente superior a qualquer hollywoodiano, e que o artesanato da índia potiguar é mais belo que qualquer bibelô manufaturado na Alemanha.
Ambos alienam-se e ajudam a emburrecer o Brasil. Tanto um como outro não entendeu nada do que Oswald de Andrade queria e o que Júlio Cezar descreveu como “repolitizar a antropofagia”. Para ele a Antropofagia seria a imaginação daquilo que é distinto, diferente, vindo de relações econômicas, culturais e políticas desiguais. Ou seja, seria uma “arma de combate acionada por quem está no pólo menos favorecido” convertendo o que seria imposição em uma escolha consciente daquilo que será “devorado”, assimilado e topicalizado, sendo uma maneira de preservar a identidade nacional sem evitar a mudança. Se você nõa entendeu, então vá ouvir Tom Zé que a “ficha vai cair”.
Bem... voltando à FLIP chego à mesa Tour dos Trópicos e a David Byrne. O roqueiro brilhante do Talking Heads rendeu uma boa conversa sobre... urbanismo! Sim, David Byrne escreveu um livro no qual relata seus passeios de bicicleta por várias cidades do mundo. De elogios ao brasileiro Jaime Lerner e ao colombiano Enrico Peñalosa e críticas a Le Corbusier (como urbanista, claro, não como arquiteto), David mostrou que entende muito do assunto e que está empenhado em transformar as cidades em lugares mais adequados ao convívio humano do que ao tráfego de automóveis. Sendo assim, seja bem vindo David, junte-se ao time!
Como último evento oficial da FLIP fui assistir à peça de Zé Celso com o Teatro Oficina encenando Macumba antropófaga. Como sempre é esperado em peças de Zé Celso tinha muita gente nua, muita cena picante e, claro, muitas polêmicas. A longa peça de quase 3 horas falou de aborto, homossexualidade, Macunaíma, Literatura e cultura brasileira, em uma salada muito bem feita! Valeu cada segundo correndo de um lado para outro no teatro! Coisas de Zé Celso.
A FLIP é um ótimo divertimento para quem gosta de livros e idéias, pois foram estas duas coisas com as quais mais tropecei em Paraty nestes dias (além das malditas pedras na rua, claro!).
As fotos que fiz na FLIP2011 estão aqui.
Um forte abraço!
Washington Lemos
p.s.: Eu não vi a paletra de valter hugo mãe (ele escreve o nome dele assim mesmo!) mas vele dar uma olhada no video.