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As portas da percepção: Bibliotecas

25 de July de 2011 - 02:35:57

 

HolandaNa escola os livros de leitura obrigatória sumiram do currículo, ou foram drasticamente reduzidos. Os projetos que ensinam crianças a tocar tambores feitos de lata tem mais apoio do que aqueles que trabalham com livros e leitura. As bibliotecas públicas (quando existem) possuem freqüentadores escassos e verbas mais escassas ainda! E o poder público se defende. A desculpa é sempre a mesma: os jovens de hoje não querem ler.

Isso não é verdade. Este mesmo jovem “iletrado” do qual os professores reclamam é aquele que devorou as cerca de 3.000 páginas da série de 7 livros do bruxinho Harry Potter ou as mais de 2.000 páginas de vampirismo romântico de Stephenie Meyer. Culpar o desinteresse dos jovens pela leitura ou pelas bibliotecas é covardia, intelectual e política. Uma derrota de todos nós.

Ao ignorar completamente as tímidas iniciativas feitas pelo poder público que tenta incentivar o “hábito da leitura”, os jovens (e a população em geral) dão um recado claro: estas iniciativas estão erradas! São ineficientes e anacrônicas.

Um desses erros é colocar os livros (clássicos, obviamente) em um altar, distantes e de difícil acesso aos potenciais leitores. Em bibliotecasBiblioteca de Santiago frias e escuras, esquecidas em um canto qualquer cidade. Em tons cinza. Burocráticas. Velhas. Pesadas. E quase sempre empoeiradas.

É isso a que se resumem as bibliotecas municipais (quando existem, claro!). Ao decidir criar uma biblioteca é costumeiro que prefeituras não pensem muito. A regra é conseguir doações de livros velhos, ou comprar os clássico com verbas do MEC e colocar tudo em um local escrito “biblioteca” na fachada e pronto. Eles seguem um modelo clássico de biblioteca, um modelo que tem uns... 3.000 anos!

Em pleno século XXI alguns ainda chamam este amontoado de livros de biblioteca, eu chamo de depósito (ou cemitério, pois livros que não são lidos, são livros mortos!). Depósito de livros velhos, quase sempre ou desimportantes ou clássicos literários que já se encontram em domínio público e disponíveis para download em qualquer site da internet.

Parece-me óbvio e previsível que estes ambientes estejam cada vez mais esquecidos e abandonados. Resende, por exemplo, ficou quase dois anos sem biblioteca e quase ninguém deu muita falta! As bibliotecas precisam se reinventar, precisam ser reinventadas pelo poder público. E o poder público precisa olhar pela janela, ver que mudamos de século e que o que antes era bom, agora já não basta. A biblioteca precisa ir para a rua... e deixar a rua vir para a biblioteca.

As bibliotecas das quais precisamos devem tratar a leitura como entretenimento, como uma mídia compatível com o vídeo e com o áudio. Devem parecer mais um parque de diversões e menos uma igreja. Salas de estudos silenciosas individuais devem compartilhar espaço com áreas de descontração, para o estudo em grupo, leitura de livros da moda, revistas da semana ou periódicos do dia. É desnecessário dizer que uma rede de acesso gratuita à internet bem como computadores disponíveis são imprescindíveis.

Delft Public Library Isso vai além de uma reforma de prédios, consiste em uma mudança de entendimento do papel da biblioteca. Se encararmos como função fundamental das bibliotecas públicas a democratização do acesso ao conhecimento, não tem sentido privar o leitor menos abastado da leitura dos livros mais vendidos no mês nas principais livrarias do país, nem fazer uma censura prévia daquilo que ele deve ou não ler. A escolha é do leitor, a liberdade é individual, a biblioteca deve “apenas” tornar disponíveis os livros, desde os clássicos até os modismos da vez. Atender as diferentes necessidades e os diversos gostos, com livros infantis, gibis, revistas, Best Sellers da literatura nacional e internacional e os cânones também. Não esquecendo equipamentos e estruturas para que deficientes visuais tenham a oportunidade de ler em braile ou ouvir áudio books (o equipamento é barato e toda a sociedadetem direito ao acesso!).

Biblioteca de São PauloBem... fica claro que a biblioteca que precisamos é a que todos nós desejamos. Basta escutar as ruas. Basta entrar nas grandes livrarias. Ou pesquisar um pouco o que o mundo está fazendo. Exemplos não faltam: Biblioteca de São Paulo, Biblioteca de Santiago (Chile), Cuyahoga County Public Library (Ohaio/ EUA), Delft Pub­lic Library (Holanda) ou Turku City Library (Finlândia).

É hora do poder público assumir as responsabilidades e efetuar as mudanças necessárias para que as bibliotecas continuem (ou voltem) a proporcionar o acesso ao conhecimento, de um modo cada vez mais efetivo, eficiente, multimídia e democrático. É hora de entrar no século 21.

 

Abraço,

Washington Lemos

Para saber mais:

Reportagem sobre a Biblioteca de São Paulo

Imagens de video da Biblioteca de Santiago (Chile)

Biblioteca em construção na USP

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